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Anseios da Alma e Destino Humano
por Claudia Araujo
Carl Gustav Jung viveu numa época que colocava o homem sob o
completo domínio da biologia e dos seus instintos. Contudo,
desenvolveu uma outra visão do processo humano. Percebeu que o
grande questionamento humano passava pela busca de significado, a
busca de um sentido para sua vida, e que o ser humano, tinha como
destino sua realização, a busca pelo retorno ao Uno, a Deus.
Percebeu então, que em todo esse trajeto, a alma clama por esse
retorno. Isso lhe levou ao entendimento de que a psique humana
vivencia um processo natural que a impele ao crescimento, a uma
percepção de que existe uma finalidade no organismo psíquico, que
o leva a se orientar no sentido da sua auto-completude. Detectou
assim, um sentido na vida interior que ele denominou de Processo de
Individuação. Nesse processo, o ego vai ter que entender sua
relatividade, e de que na realidade, é uma ilusão, tendo que
encarar suas máscaras, reconhecendo e enfrentando a sombra, e
dialogando com nossa contraparte sexual subjetiva e interior
"anima e animus". Somente dessa maneira, poderemos almejar
à uma compreensão real de nossa vida interior, e nos realizar.
Assim, a sombra aparece então, não como a inimiga interior, mas
como o que falta a cada personalidade, o que daria um sentido à
nossa vida, e que o ego não quis jamais acatar. Ela funciona como
um estágio iniciatório no processo de crescimento humano,
inclusive subvertendo a velha escala de valores estabelecida. Para a
individuação, a sombra tem que se realizar, e a psique jamais
medirá esforços nesse sentido, ela forçará de todas as maneiras
para que sejamos aptos a buscar nossa integralidade. Jung fala que
nesse processo, existe um arquétipo centralizador e organizador de
nossa vida psíquica, o arquétipo do SELF ou SIMESMO, que se
constitui em uma imagem do divino, se apresentando mesmo, como a
manifestação do divino em nós. É ele o que nos impulsiona à
realização, sendo o responsável pelos anseios da alma pelo
crescimento, fazendo portanto, nosso destino. O conceito de SELF,
representa então na psicologia junguiana, aquilo que o crente chama
de Deus. "Senhor, amai-me com força, amai-me muito e
longamente; quanto mais vezes me amardes, mais pura serei; quanto
mais fortemente me amardes, mais bela serei; quanto mais longamente
me amardes, mais santa serei. Deus responde à sua amada: Devo à
minha natureza amar-te com freqüência, pois eu próprio dou o
amor; devo ao meu desejo amar-te fortemente, pois também eu desejo
que me amem com ardor; devo à minha eternidade amar-te longamente,
pois eu não tenho fim." Diálogo entre Machtild (mística) e a
divindade.
Para nós astrólogos, é fácil perceber essa
"organização" através dos trânsitos dos planetas
transpessoais: Urano, Netuno e Plutão. Esses, ao tocarem os
planetas em nosso mapa, como que subvertem as normas estabelecidas,
nos levando por caminhos impensados anteriormente, e nos fazendo
enxergar partes de nós mesmos que não reconhecíamos como fazendo
parte de nossa personalidade, mas que agora pedem expressão. Existe
um processo comum em todos eles, a saber, a perda inicial de alguma
coisa ou valores para que possamos dar lugar ao novo, à
personalidade nascente, que a partir daí se torna mais abrangente.
O que pode mudar com relação a cada um deles é a forma de perder
ou ter que abrir mão, e para onde vamos, pois essa é uma questão
relacionada a capacidade do homem de fazer suas próprias opções
dentro do que se poderia entender como seu destino, e reflete uma
espécie de crescimento interior de cada um. Contudo, existe um fio
condutor comum aos três: - teremos que nos livrar de bagagens
desnecessárias para que possamos prosseguir em nossa marcha rumo ao
crescimento, e por isso, nesses momentos, somos levados a acreditar
que um destino implacável se abateu sobre nós, nos tirando aquilo
que mais prezávamos e valorizávamos anteriormente e temos a
impressão, errônea, de que já não somos capazes de optar.
Pode
ser que nosso ego não tenha essa possibilidade, mas nossa
totalidade, sim. Com freqüência tenho sentido a associação do
SELF com os planetas transpessoais, os verdadeiros responsáveis
pela possibilidade de nossa alma se realizar. Como os cobradores
divinos, ou ainda como se através da própria divindade cobrando, nos tornemos
algo maior do que nosso pequeno ego considera o melhor para nós. Eles vêm e nos arrastam por circunstâncias que ainda não
havíamos considerado anteriormente, mas que acabam por nos abrir as
portas para um novo cenário e um sem fim de novas possibilidades,
um verdadeiro renascimento. O ser humano teme essas mudanças.
Estamos tão identificados com a pequenez do que projetamos para
nós mesmos que nos abalamos e desesperamos ao perder
relacionamentos que não nos preenchiam, trabalhos que não nos
tornavam criativos, formas de vida que esclerosaram, mas que se
confundiram com o que o mundo nos fazia entender como o melhor para
nós mesmos, e assim, muitas vezes nem somos capazes de identificar
o porque, embora tendo efetuado todas essas conquistas consideradas
ideais, ainda assim, sentirmos o vazio interior, como que nossa alma
dizendo que merecemos muito mais: nem melhor, nem pior, mas muito
mais autêntico.
Todos tememos aquilo que não conhecemos, portanto,
é natural que também temamos nosso vir a ser, mesmo que esse
represente nossa completude. É doloroso descobrirmos que não somos
aquilo em que acreditávamos, ou ainda que não somos capazes de
preencher as expectativas que o mundo projetou para nós.
Perseguimos por tantos anos modelos que considerávamos ideais que
ao nos vermos abrindo mão desses mesmos modelos que simbolizavam nossa
própria segurança, o natural é o pânico, o medo do ignoto que
está por vir. Entretanto, ao nos tirar o que já não nos serve, os
planetas transpessoais em seu ciclo estão gerando vida, gestando
realização, plenitude, buscando a completude de nossa alma. Depois
da crise, quando o novo se estabelece, o que pode-se observar é a
riqueza do que foi conquistado, e mais do que isso, a sensação de
paz e completude. Nosso destino se cumpriu e nossa alma se realizou.
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