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O Mito do Vampiro e seu simbolismo
A definição de vampiro mais utilizada é a de que esse é um cadáver que, reavivado, levanta-se de seu túmulo para alimentar-se do sangue de suas vítimas. Faz isso para manter-se imortal e com aspecto jovem. Porém, não podemos afirmar que todos os tipos de vampiros que aparecem nas mais variadas estórias encaixam-se na descrição acima. Os tipos de vampiros e suas características sofrerão variações de acordo com a origem cultural de suas estórias. Apesar da definição clássica de que o vampiro ressuscitaria seu corpo através do sangue da vítima, muitas versões falarão de espíritos desencarnados, como em estórias da Grécia e da Índia
. Em outra versão do mito, mais moderna, o vampiro aparecerá como uma forma mais avançada de vida, um ser mais inteligente que poderá ter vindo do espaço sideral ou ser o produto de uma mutação genética (6). Há ainda aqueles que se apresentam como seres humanos comuns, porém são diferenciados dos demais por beberem sangue ou terem poderes extraordinários, como o de sugar ou 'drenar' as pessoas emocionalmente. O que há em comum nas estórias quanto à origem do vampiro, é que em todos os casos, há um morto que vem para a vida. Mais adiante veremos que, psicologicamente, esse episódio pode ser visto como aspectos do inconsciente que saem da escuridão e vêm para a luz da consciência. Uma outra característica comum que aparece nas mais variadas origens do mito do vampiro, é o sugar sangue tanto de humanos quanto de animais. Porém, em muitas estórias e mitos, os comportamentos das personagens que tomam uma forma vampiresca por sugarem sangue de outras pessoas periodicamente, podem ser entendidos como uma forma de drenar a força vital de sua vítima. Assim, observamos que a descrição dos sintomas de quem é atacado por um vampiro e que tem perda de sangue, são a fadiga, a perda da cor do rosto, a apatia, a desmotivação e a fraqueza.
É interessante observar que essas são características semelhantes àquelas apresentadas pelas pessoas que demonstram pouca energia psíquica na consciência como em casos de depressão, onde a maior parte da energia está no inconsciente. Em grande parte dos contos, nas mais diversas culturas, aquele que se torna vítima de um vampiro, acaba transformando-se em um novo vampiro. O animal associado ao vampiro é o morcego.
Tal relação se estabelece devido a características específicas desse animal. Uma delas é a de sobrevoar locais escuros, tal como o vampiro, que normalmente tem preferência em atacar quando chega a noite. Segundo Chevalier e Gheerbrant
, na arte germânica, o morcego simboliza algumas vezes a inveja. Esses autores colocam que a inveja oculta-se nas sombras e não à luz da consciência. Nesse sentido, também está associado ao escuro aquilo que não é visível nem perceptível. O morcego também tem a característica de sugar o sangue de suas vítimas, assim como o vampiro. Essa talvez seja a característica mais evidente entre os dois. O vampiro,
enquanto figura feminina, aparece em algumas variações de mitos . Neste caso, simbolizam algumas mães que sugam a energia de seus filhos, vítimas de um "vampirismo". Tais filhos, no decorrer de suas vidas, podem transformar-se em vampiros e tornar as pessoas de seus relacionamentos pessoais em novas vítimas. Aprenderam desde cedo que crescer não é buscar recursos dentro de si mesmos, e sim nos outros. Desta forma, a relação vampiresca continua até que alguém consiga romper tal dependência doentia. Os vampiros podem se apresentar a suas vítimas de várias formas. Em algumas versões, essas criaturas assumiriam um "corpo astral", termo esotérico que corresponde a um segundo corpo ou espírito, e através desta forma assumida nutrir-se-ia, sugando o sangue da vítima enquanto estivesse dormindo.
Nos países eslavos e em outras culturas onde o cristianismo é assimilado, há versões onde os vampiros assumem uma postura sedutora e de perversão, semelhante aos aspectos demoníacos atribuídos à figura do diabo. Embora em algumas estórias o vampiro simplesmente ataque sua vítima e
aja como predador atrás de alimento, essa não é a forma mais difundida de sua atuação. A forma sedutora é ainda a mais explorada, principalmente na modernidade, onde o vampiro se apresenta sempre com algum atrativo para as suas vítimas. Atualmente, as imagens do vampiro são mais elaboradas, e tal ser assume poderes como o hipnotismo, transforma-se em animais, possui habilidade em seduzir, carisma que se diferencia dos mortais, força extraordinária e imortalidade. Assim, o vampiro apresenta-se à vítima de duas formas: por um lado ele a paralisa, e por outro a encanta. Ao sugar o sangue de sua vítima, o vampiro lhe tira sua força vital. Se imaginarmos alguém que perde sangue numa hemorragia, por exemplo, veremos que este apresentará apatia, aspectos de cansaço, perda da coloração da pele, entre outros sintomas. Numa vivência, onde uma pessoa sente-se "sugada" por seu chefe, pela empresa que trabalha, por seu marido, filhos ou em qualquer outra situação, observamos muitas vezes os mesmos sintomas. É como se o tema do vampiro representasse uma alegoria que faz referência a relações que estabelecemos com o mundo e que assumem um caráter de vampirismo. O sangue tem seu simbolismo relacionado com a vida; portanto, sua perda significaria redução da vitalidade.
Essa relação emerge de época primitivas, onde o sangue era utilizado como bebida ou esfregado no corpo das pessoas em sacrifícios religiosos
. No cristianismo, como traz a Bíblia, vemos o sangue de Jesus representando seu sacrifício. Da mesma forma, representando o sangue através do vinho, Jesus diz:
"Aquele que vos ama lavou em seu sangue nossos pecados". Assim, ao sugar o sangue, o vampiro abstrai a essência de vida de sua vítima, da qual ele alimenta-se para manter-se imortal. Complexos Negativos: o vampiro interior em nós
"O complexo rouba do ego a luz e a nutrição, da mesma maneira como um câncer rouba ao corpo a vitalidade". (C.G. Jung)
O complexo, segundo James Hall, é um grupo de imagens relacionadas entre si que tem um acento emocional comum e que se formam em torno de um núcleo arquetípico. Assim, ao longo de nossa vida, teremos experiências que evidenciarão aspectos comuns sob um mesmo tema. Um grande exemplo seriam as experiências com a figura paterna. As experiências com o pai, com o primeiro professor, com o chefe, revelam um traço afetivo comum, formando um complexo paterno. Tal complexo gira em torno de um arquétipo, nesse caso, o do Grande Pai. Os arquétipos, para James Hall
, são padrões ou motivos universais que vêm do inconsciente coletivo e formam o conteúdo básico das religiões, mitologias, lendas e contos de fadas, assim como fora introduzido por Jung. Quando o complexo torna-se negativo, ou seja, quando seus conteúdos são negados pela consciência, os mesmos voltam para o inconsciente, e em determinadas situações, invadem o campo da consciência. Os complexos roubam energia do ego, o centro da consciência, e se fortalecem no inconsciente. Portanto, o complexo negativo representará o vampiro que saiu do mundo dos mortos (o inconsciente) e veio sugar ou roubar sangue (a energia psíquica) de sua vítima (o ego).
Melton, afirma que Jung observou que as tendências das personalidades auto-eróticas, autistas e narcísicas podem resultar numa personalidade que é, na realidade, predatória, anti-social e parasítica sobre a energia vital dos outros. Além disso, afirmou também que Jung interpretou o vampiro como um complexo inconsciente que poderia controlar a psique, surgindo na mente consciente como um fascínio ou um encantamento. Portanto, o vampiro interno em cada um de nós é representado por este complexo que torna-se negativo, na medida em que toma parte da energia do ego e em dado momento assume sua força. A analista junguiana Marie-Louise von Franz
, pesquisadora de mitos e contos de fadas, comenta algo sobre a correlação existente entre o vampiro e o complexo que atua negativamente em nosso psiquismo: "É por isso que vampiros e Dráculas chupam sangue. O sangue é a psique emocional e ativa em nós, a psique afetiva. Depois de sugadas pelo vampiro, as pessoas ficam sem atividade alguma. Elas simplesmente caem em sonhos passivos, nos quais buscam realizar seus desejos. Na verdade, é isso o que caracteriza a maioria dos complexos negativos ou dissociados. Se rejeitarmos ou dissociarmos algum complexo da nossa psique, ela começa a drenar secretamente nossa energia pelas costas. Aos poucos, ele se transforma naquilo muito bem representado pela imagem do vampiro, algo que ataca durante a noite e chupa nosso sangue. A pessoa simplesmente não percebe o que está acontecendo com ela". (Franz, 1988)
Relações de dependência afetiva: o vampiro e sua vítima "Tu podes te libertar da corrente Que te ligam às tuas chaves Que te ligam às tuas correntes Tu podes também te livrar Das chaves e das correntes". (Pierre Weill)
É importante perceber que, para que o vampiro mantenha absolutamente sua atitude de sugar o sangue, é necessário que haja a vítima. É a vítima que, de alguma forma, mantém a relação, pela própria passividade do papel que assumiu. O vampiro representa aquele indivíduo que quer tudo para si, não se importando com o prejuízo que causa aos outros. Ele vai "sugando" o outro até a morte. Isso pode representar psiquicamente que ele é capaz de promover uma morte psíquica no outro por vezes momentânea, ou até duradoura. É como se a vítima perdesse sua identidade e passasse a ser um instrumento de satisfação de desejo daquele que adota o comportamento do vampiro. Ambos, vítima e vampiro, representam indivíduos que não confiam em seus próprios recursos para realizarem-se. Aquele indivíduo que constela o arquétipo do vampiro sobrevive às custas da vítima, e essa última pode submeter-se por medo, mantendo essa relação por não confiar em seu crescimento individual. Para que esse tipo de relação aconteça, é necessário que complexos inconscientes (de certa forma complementares) sejam ativados em ambas as partes. Quando um dos dois ou ambos trouxerem o complexo ativado do inconsciente à luz da consciência, integrando a ela conteúdos psíquicos, a relação será rompida. Quando se estabelece uma conexão sobre o significado do sangue relacionado à energia psíquica, podemos concluir que o vampiro, em sua relação coma vítima, rouba sua energia, e esta permite que isso aconteça, consciente ou inconscientemente.
Para Jung , a libido deve ser o nome da energia que se manifesta do processo da vida e que é percebida subjetivamente, enquanto aspiração ou desejo. Portanto, quando falamos em energia psíquica segundo Jung, podemos afirmar que ela não assume apenas a força sexual como coloca a psicanálise, mas manifesta-se em outras áreas como no poder, na fome, no ódio, na religião, etc. Outra analista junguiana, Gertrude Hess, ao falar sobre o conceito de energia desenvolvido por Jung, comenta que
"Aqueles que querem atribuir visões originais do energetismo à superstição, apenas passam por cima de sua qualidade psíquica. A 'mana' é tão real como o poder do amor ou as idéias que se apoderam de nós. Mesmo um ocidental esclarecido pode sentir a emanação de uma pessoa querida ou de um objeto de sua preferência. Sente um calor não registrável por termômetro e seu entusiasmo ou enlevo não faz registrar qualquer potencial pelo voltímetro, embora seus efeitos possam ser objetivamente observados". (Hess, 1994)
Numa relação onde estejam atuando complexos (vampiro-vítima) as pessoas falam nessa perda de energia não computada pela ciência, porém com efeitos perceptíveis para ambos. De modo geral, aquele que "rouba", sente certo poder, e a vítima, por sua vez, sente-se frágil e com a sensação de ter sido sugada, permanecendo "sem energia", sem motivação. O escritor Luís Pellegrine fala de energia vital oferecendo um amplo sentido a este conceito. Falando em "vampiros de energia", classifica os mesmos tendo o egocentrismo como principal característica. Comenta também sobre o aspecto psicológico deste fenômeno:
"Na verdade, quase todos nós, em um momento ou outro de nossas vidas, quando nos encontramos em desequelíbrio neurótico, acabamos nos comportando como vampiros da energia vital alheia". (Pellegrine, 1996)
Pellegrine classificará em dez os tipos de vampiros: Vampiro Cobrador = cobra sempre, principalmente aquilo que não lhe é devido. Acha que pode tudo, sem dar nada em troca. Vampiro Crítico = critica a tudo e a todos negativamente. Seu lema é maldizer sempre, elogiar sinceramente nunca. Vampiro Adulador = adula o ego da vítima, cobrindo-o de falsas lisonjas. Vampiro Reclamador = cada fala ou gesto contém uma reclamação explícita ou implícita, sem se importar se há fundamentação ou não. Vampiro Inquiridor = pergunta sobre tudo, como alguém que dispara uma metralhadora, e antes de se responder, interromperá, fazendo outra pergunta. Ele não tem interesse nas respostas, quer apenas desestabilizar o fluxo da mente. Vampiro Lamentoso = ataca pelo emocional e afetivo. Apresenta sua vida como um mar de lágrimas, gemidos e dor. Coloca-se como vítima diante de um mundo carrasco. Vampiro Pegajoso = aproxima-se através da sensualidade e sexualidade da vítima. Aproxima-se como se quisesse lambê-la com os olhos, mãos, língua, parecendo um polvo. Vampiro Falante = o indivíduo permanece falando, falando, durante horas. Ele quer apenas um ouvido, obrigando a pessoa a escutá-lo. Vampiro Hipocondríaco = cada dia aparece com uma doença nova, despertando nos outros cuidados e preocupações. Se for dado ouvidos, acaba-se doente, e ele muito bem. Vampiro
Encrenqueiro = tudo é resolvido a base de violência e agressão, tanto física quanto verbal, provocando na vítima um estado irado, raivoso, sugando-a assim em seu estado de cólera. É possível observar nesta discussão o quanto é fácil estabelecer uma relação vampiro-vítima. Pelegrine dá idéias de como a vítima pode livrar-se dessa situação, que só parece possível ser desfeita quando a vítima resolver suas questões internas e não se deixar levar pela sedução do vampirismo. Da dependência ao crescimento psíquico: rompendo com a maldição
"Só à medida em que o homem se expõe repetidas vezes à aniquilação, aquilo que é indestrutível pode surgir dentro dele". (Kaufried Grafe Lou Durkein)
Segundo Chevalier e Gheerbrant, quando o homem assume sua responsabilidade perante sua vida, não há mais necessidade de projetar outros tantos conteúdos que ele mesmo pode estar resolvendo dentro de si mesmo. Para esses autores, quando o homem aceita sua condição de ser um indivíduo mortal, o vampiro acaba por desaparecer de sua vida. Continuam dizendo que
"...só existirá (o vampiro) enquanto um problema de adaptação consigo mesmo ou com o meio social não estiver resolvido."
O uso do alho, tão difundido em diversas culturas, é citado por Melton. Este autor diz que o sentido era o mesmo de tomar ervas, onde havia a crença de que o sangue ficaria azedo. Acreditava-se que dessa forma o vampiro manter-se-ia afastado. Quando o vampiro é morto, a tradição manda que uma estaca seja enfiada em seu coração ou em seu estômago
. Sabe-se que o coração representa nosso centro vital, pois ao parar de bater, morremos. Sede de nossos sentimentos, possui também uma conotação de ligação com divino para hindus e egípcios. Portanto, a estaca no coração do vampiro parece ter a intenção de acabar com afetos nocivos, para que não reapareçam novamente. O estômago também possui um simbolismo interessante, pois é a sede de nossa alimentação a ser digerida. Talvez a estaca no estômago do vampiro signifique acabar com sua alimentação. Sabemos que o alimento representa os afetos que engolimos. Assim, mais uma vez, é feito um rompimento com o objetivo de acabar de vez com tudo de nocivo que esse vampiro pode ter-se alimentado. Da mesma forma, cortar a cabeça do vampiro parece trazer a idéia de dar fim ao racional, nosso centro de idéias, e trazer, possivelmente, o emocional de volta. Quando se tem um complexo negativo, supondo a energia do ego, muitas vezes isso se reflete em novas defesas através de atitudes racionais, usando muito da "cabeça". Ao entrarmos em contato com esse complexo, a emoção volta a fluir e o razão não é mais usada como defesa. Ocorre, assim, uma integração entre consciente e inconsciente. O crucifixo como forma de proteção contra o vampiro, veio com o Igreja e demais cristãos. Logo, é um símbolo novo. A cruz representa o sagrado, mesmo antes de Cristo. Ela contém em si a ligação entre o céu e a terra, tendo uma função de síntese. Para os orientais, é a ponte para chegar em Deus. A luz também é inimiga do vampiro. Ele age à noite. Tal como o morcego, fica cego à luz do dia em algumas versões do mito. Assim, verificamos que quando trazemos um complexo negativo (podendo ser representado pelo impuro) para a consciência (podendo ser representada pela luz, claridade), ele perde a força da escuridão, saindo da sombra pessoal. Para Jung
, a sombra é uma parte de nossa personalidade por onde vão todos os conteúdos que negamos desenvolver na consciência. Encarar nossos conteúdos inconscientes, trazendo-os para para a luz da consciência, é um ato de coragem, além de ser a forma mais eficaz de eliminar nosso vampiro interno. Quando o vampiro interno (o complexo negativo) se dissolve, também e impossível estabelecer uma relação vampiro-vítima. Para que essa relação sobreviva, ambos devem ter complexos negativos atuando. É importante lembrarmos que toda vítima traz um um vampiro em potencial enquanto oposto, e todo vampiro traz em si um pouco de vítima também. --------------------------------------------------------------------------------
Referências Bibliográficas CHEVALIER, J., GHEERBRANT, S. Dicionário de símbolos. São Paulo : José Olympio, 1990. HALL, James A. A experiência junguiana. São Paulo : Cultrix, 1992. HESS, Gertrud. O tratamento na psicologia analítica. V.Eschenbach, Vol.2/I, 1994. HUMBERT, Elie. Jung. São Paulo : Summus, 1990. JUNG, C.G. A natureza da psique. Petrópois : Vozes, 1984. MELTON, Gordon J. O livro dos vampiros. São Paulo : Makron Books, 1995. PELLEGRINE, Luís. O decálogo dos vampiros. Planeta. Ano 24, n.6, p. 44-50, 6 de junho de 1996. FRANZ, M.-L. von. O caminho dos sonhos. São Paulo : Cultrix, 1988.
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