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Os Arquétipos das Deusas e o Feminino I 
por Anyara Meneses Lasheras  



Na Grécia antiga as mulheres sabiam que estavam sob o domínio de uma deusa a quem veneravam prestando homenagens e oferendas em seus templos, invocando seu auxílio. Estas mesmas deusas, ainda fazem parte da vida da mulher, mas habitam o mundo do inconsciente coletivo como arquétipos (imagens primordiais). Segundo, Carl Gustav Jung, o inconsciente coletivo é a instância psíquica mais profunda que armazena experiências que não são nem pessoais e nem individuais, mas imagens primordiais ou arquetípicas e também os instintos, que não podem ser acessadas quando necessário, entretanto, manifestam-se em sonhos, mitos e fantasias de maneira simbólica. Por isso, no íntimo de toda mulher encontrar-se-ão as deusas. Todavia, em cada mulher, estará uma ou mais deusas ativadas e outras não, e mesmo a ativação terá suas diferenças individuais.

No início dos tempos, tinha-se o Matriarcado. Período marcado pelo predomínio do Arquétipo da Grande Mãe e, conseqüentemente, o feminino tinha seu lugar de destaque. Em seguida, houve uma grande revolução e as divindades masculinas passaram a predominar, iniciando-se o Patriarcado. Com o advento do cristianismo, entrou-se na era do Patriarcado de modo definitivo. Neste período, os valores masculinos passaram a preponderar e, progressivamente, o feminino foi rejeitado e execrado. Os valores associados ao feminino, ligados ao princípio de Eros, que são a receptividade, a passividade, a disciplina e a subjetividade, que aparecem como o se relacionar, criar e cuidar, foram expurgados. E, valores associados ao masculino, ao princípio do Logos, tais como discriminar, julgar, impor regras e limites de maneira rígida, e agir e relacionar-se impessoalmente foram supervalorizados.

No momento atual observa-se que as próprias mulheres aderiram ao modelo do Patriarcado, passando a supervalorizar o princípio do Logos. Então, decidiram ser mulheres que pensam demais, racionalizam demais, agem demais, competem demais, julgam demais, discriminam demais e, se relacionam menos, criam menos, cuidam menos. As próprias mulheres passaram a ridicularizar as características inerentes do arquétipo do feminino. Assim, as mulheres passaram a viver com padrões de comportamento estereotipados, isto é, mediante ditames sócio-culturais. E, com isso, as Deusas foram renegadas ao porão da vida. O grande feminino foi caçado como uma bruxa, queimado e suas cinzas foram sopradas ao vento. Mas, chegou a hora de, como a grande ave Fênix, ressurgir das cinzas.

Por isso estamos vendo o ressurgimento dos movimentos em pró da bruxaria (Wicca) que não tem relação alguma com a demonologia ou algo assim. Mas são mulheres e até mesmo alguns homens, se propondo a permitir o ressurgimento do Grande Feminino, da Grande Mãe, da Natureza. Mesmo no catolicismo, o chamado Movimento da Renovação Carismática que, também,tem enaltecido o feminino, orando à Virgem Maria.

Mas, muitos momentos críticos, momentos de renovação e transformação, na vida da mulher, invocam, de alguma maneira, os poderes das Deusas. Segundo Bolen: "A mulher que decide continuar seus estudos além da escola secundária favorece o desenvolvimento adicional das qualidades de Atenas. Estudar, organizar informações, fazer provas e escrever teses, tudo requer a inclinação à lógica, própria de Atenas. A mulher que escolhe ter um bebê convida a maternal Deméter a ser uma presença mais forte. E registrar uma viagem pela selva, com mochila às costas, oferece mais expressão a Ártemis." (1990, p.60).

Em sendo assim, conhecer as deusas e seus atributos proporciona às mulheres o autoconhecimento e, também, o que está por trás de seus relacionamentos de qualquer natureza, mas principalmente no tocante aos relacionamentos afetivos. Conhecer as deusas, portanto, favorece que a mulher, além de seu autoconhecimento, compreenda seus relacionamentos com homens e mulheres, com seus pais e filhos.

As deusas sempre foram solicitadas para auxiliar em alguma função:
Atenas auxiliava na reflexão sobre uma situação, é a deusa da sabedoria; Perséfone, a se estar disponível e receptiva; Hera, no desempenho dos compromissos e para ter autoconfiança; Deméter, no desenvolvimento da paciência, generosidade e tolerância; Ártemis, na constância do objetivo; Afrodite, na capacidade para o amor, na relação com o próprio corpo e Héstia, para manutenção da paz e serenidade.

Bolen, no livro "As Deusas e a Mulher", inova classificando as deusas em: virgens, vulneráveis e alquímicas. Segue um breve resumo das características dessa classificação e deusas.

As deusas virgens

A deusa da caça e da lua, Ártemis; a da sabedoria e das artes, Atenas, e a da lareira, Héstia são consideradas deusas virgens, não por serem intocadas sexualmente, mas por serem independentes e ativas. Portanto, representam estas características nas mulheres. Virgem, significa "não pertencente ao homem", ou seja, não há dependência do homem e nem de sua aprovação. Por isso, não faz nada com a única finalidade de agradar a um homem, faz porque quer, porque sente que assim deve fazer; ela segue, sua própria escala de valores que não foram afetados pela coletividade. As mulheres com aspectos das deusas virgens são aquelas que sacrificam os relacionamentos com os homens para relacionarem-se mais profundamente consigo próprias. Mas cada uma das Deusas virgens tem sua peculiaridade.

Ártemis, apartou-se do convívio com os homens, e hoje podemos observá-la nas feministas convictas e nas mulheres extremamente rígidas e individualistas. Já, Atenas, não se apartou e conviveu com os homens como uma igual; é a mulher atual que compete, lado a lado, profissionalmente, com os homens. E, Héstia, é a que se retraiu e ficou sozinha. É a mulher que abandona a sua feminilidade assim evitando atrair o interesse masculino e se recolhe em tarefas diárias.

As mulheres Ártemis

São aquelas do estilo "selfmade", que sabem cuidar de si mesmas, autoconfiantes e independentes. Apresentam aguda concentração e direção no que fazem, não se importando ou se incomodando se vão agradar ou não a alguém. São extremamente objetivas. Gostam de estar no meio de um grupo de mulheres, é o arquétipo da irmã, por isso, construindo "irmandades". Apreciam a natureza e por isso podem se dedicar ao camping, em explorar cavernas, etc., como as atividades esportivas e competitivas.

No trabalho são objetivas, competitivas e não temem oposição.

São do tipo que desenvolve amizade profunda com outras mulheres, tendo, por isso, uma ou mais, melhores amigas, com as quais compartilham seus interesses.

Sua sexualidade pode ser não desenvolvida ou não expressa. As relações são algo secundário e o sexo pode ser visto como uma atividade esportiva e competitiva.

Preferem homens bem dotados intelectualmente com os quais possa compartilhar idéias e ideais. Quando se casam, o relacionamento é feito mediante a igualdade e pouco sexualizado, ficando mais no campo fraternal. Podem se casar, também, com um homem que venha a sustentá-las. Se não conseguirem manter o aspecto competitivo fora do relacionamento, e estiverem se relacionando com um homem forte, fatalmente, acabarão por destruí-lo ou ao relacionamento.

Como mulheres desse tipo não se envolvem emocionalmente, são frias e distantes no que tange o sentimento alheio Tendem a ferir muito os outros pois, desprezam a vulnerabilidade e o desejo de envolvimento, são ferinas e cruéis, altamente destrutivas frente às oposições. Julgam em termos de "tudo ou nada" e não perdoam.

Para abrandar esta deusa, as mulheres devem atentar para a passagem do tempo, isto é, que a juventude não é eterna e devem olhar à frente e pensar bem no caminho que escolherão; devem desenvolver a consciência da importância do amor e o instinto gerador e criativo, assim, poderão diminuir sua unilateralidade.

As mulheres Atenas

Atenas era denominada de "filha do pai", por ter nascido da cabeça do pai (Zeus) e não ter conhecido sua mãe (Métis). Ela nasceu "pronta", adulta.

As mulheres tipo Atenas são lógicas, estrategistas, racionais, práticas, desinibidas, seguras, não se deixam levar por emoções e sentimentos e são fisicamente ativas. Estão sempre no meio-termo, visto que os extremos são caracterizados por fortes emoções. Suas defesas são caracterizadas pelo extremo intelectualismo. Não se apartam dos homens; muito pelo contrário, sentem-se bem entre eles pois compartilham dos mesmos valores patriarcais (tradição, o poder masculino, as normas vigentes, conservadorismo).

Escolhem homens poderosos e bem sucedidos; repudiam os mal-sucedidos, oprimidos ou rebeldes. Não esperam por um príncipe que venha salvá-las.

Não possuem amigas íntimas, em função de se darem melhor com os valores masculinos do que com os femininos; exasperam-se com as outras mulheres que se queixam, principalmente, contra os homens. Pessoas sensíveis são tidas como idiotas.

Gostam de saber como as coisas funcionam, de que são feitas e para que servem. O desafio intelectual é uma diversão.

Tendem a desvalorizar suas mães, tratá-las como incompetentes. E, como mães, não são maternais, geralmente, transferem os cuidados a outrem. Tendem a valorizar os filhos e a manterem distância emocional das filhas que não se mostrem independentes como elas.

Sexualmente, quando decidem ter uma vida sexual, aprendem a "arte" e desempenham com muita habilidade.

O casamento é o tipo parceria; elas ajudam os maridos a crescerem, a alcançarem sucesso. Têm pouco ciúme sexual pois, na verdade, seu casamento pode ser visto como um bom acordo comercial.

A mulher Atenas é insensível aos sentimentos dos outros, é fria e calculista, denotando grande poder para intimidar os outros. Quando se relaciona ou conversa busca as falhas do interlocutor. Por isso, sempre consegue manter os outros a uma distância razoável.

Para minimizar os efeitos negativos dessa deusa, as mulheres devem aprender a ouvir o que os outros dizem sem julgar suas emoções e sentimentos. Devem, portanto aprender a valorizar estes aspectos. Também, podem desenvolver trabalhos artesanais (costura, bordado, tricô, pintura, modelagem). Devem aprender a descobrir e vivenciar a criança interior, e, por fim, re-descobrir a mãe, aceitando-a sem depreciá-la.