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Eu tô me prometendo um post sobre o conceito de arquétipos no Franco-Atirador desde a encarnação anterior do blog. Então, deixa eu aproveitar a feliz conjunção entre um raro momento de dolce far niente (também... às quatro e meia da manhã, era só o que faltava, ter trabalho para fazer) e uma pergunta sobre o tema que o camarada Rafael Lupo me fez em uma lista pra falar um pouco sobre o assunto. O texto a seguir é basicamente a resposta que eu mandei pra ele na mesma lista, desavergonhadamente adaptado. ;-)
A rigor, o Jung fala sobre os arquétipos em praticamente todos os volumes das Obras Completas, mas uma exposição sistemática mesmo, essa você não vai encontrar em praticamente nenhum deles. É que, ao contrário do Freud, que era um pensador sistemático, e mesmo quando alterava um conceito, fazia questão de voltar atrás e atualizar os textos mais antigos, relacionar todas as partes de sua obra em um conjunto, o Jung era mais intuitivo: na perseguição das novas idéias, ele ia deixando pra trás o que escreveu antes, ficava por conta do leitor fazer as atualizações necessárias na teoria. E o conceito de arquétipo evoluiu muito ao longo do tempo. Isso causou uma confusão generalizada porque, ao contrário do que o Jung ingenuamente esperava, as pessoas raramente se dão ao trabalho de repensar os conceitos, então, quando elas falam dos arquétipos, misturam indiscriminadamente diferentes etapas do processo de elaboração do Jung, como se fossem todos equivalentes.
No caso específico dos arquétipos, essa elaboração passou por pelo menos três fases:
1. Os arquétipos como imagens herdadas (Obras Completas, vol. I ao VI). Foi o ponto de partida do Jung, a idéia de que alguns conteúdos do inconsciente pudessem ser transmitidos hereditariamente, como uma espécie de memória genética. Foi quando ele começou a formular a hipótese de um inconsciente coletivo. Nessa época, inclusive, o Jung chegou a falar de um inconsciente racial, isto é, que os conteúdos do inconsciente coletivo poderiam ser diferentes para cada raça, o que se tornou muito embaraçoso quando os freudianos acusaram o Jung (injustamente) de ser simpático ao nazismo.
Curiosamente, o próprio Freud, depois do rompimento com o Jung, começou a procurar evidências de uma memória genética, o que o levou a teorias esdrúxulas, como a de que o trauma fundamental da humanidade seria o Assassinato do Pai da Horda Primitiva. A compreensão que os leigos têm do Jung geralmente estaciona nesta fase, de um inconsciente coletivo composto por memórias ancestrais.
2. Os arquétipos como estruturas herdadas (Obras Completas, vol. VII). Ao contrário do Freud, que continuou insistindo na memória genética até o fim da vida, o Jung logo percebeu que a transmissão de conteúdos psíquicos por hereditariedade é impossível cientificamente, o que depois seria comprovado pela genética. Então, ele sugeriu que os arquétipos não seriam propriamente as imagens, mas uma predisposição da psique a gerar determinadas imagens. Os arquétipos seriam estruturas cerebrais herdadas que, ao serem preenchidas com as memórias e percepções atuais do indivíduo, desencadeariam a formação de determinadas imagens. Ou seja, a forma é que seria universal, o conteúdo seria específico de cada um (por exemplo, sonhar com a minha mãe com os atributos da Grande Mãe).
A maioria dos psicólogos junguianos só vai até aqui, que é também a noção de arquétipo compartilhada pelo Joseph Campbell. Mas, pro Jung, o conceito de arquétipo continuou evoluindo.
3. Os arquétipos como fatores psicóides (Obras Completas, do vol. VIII em diante). Foi a palavra final de Jung sobre os arquétipos. Ao longo de sua carreira clínica, ele começou a se deparar com o fenômeno da sincronicidade, que é uma coincidência significativa entre uma imagem psíquica e um acontecimento externo. No núcleo de toda sincronicidade, existe sempre uma imagem arquetípica. Isso mostrou que os arquétipos não só são capazes de influenciar estados psicológicos, mas também a própria realidade física exterior. Bom, esse era um dado que a hipótese dos arquétipos como estruturas cerebrais não permitia explicar.
Na correspondência com o Wolfgang Pauli, o Jung notou a semelhança entre a sincronicidade e alguns desenvolvimentos da mecânica quântica, como o que depois viria a ser conhecido como efeito-EPR (Einstein, Podolsky, Rosen). Se tivesse vivido o suficiente, provavelmente teria relacionado os arquétipos aos atratores estranhos da matemática do caos.
Enfim, nesse ponto, o Jung percebeu que os arquétipos extrapolavam o cérebro humano e apontavam para o fato de que, nos níveis fundamentais da realidade, o físico e o psíquico, a realidade externa e a interna, deixavam de ser vistas como separadas e se tornavam diferentes aspectos de uma realidade única, indiferenciada. Os arquétipos, então, são os fatores estruturais tanto da psique quanto do mundo. Ou seja, num certo sentido, ele voltou à concepção platônica original dos arquétipos como o fundamento de todo o universo.
Para designá-los, Jung cunhou o termo psicóide, porque os arquétipos agem na mente como se fossem psíquicos, mas na verdade são exteriores à psique. O arquétipo em si é incognoscível, só pode ser observado indiretamente através da estrutura que ele impõe aos conteúdos da psique e à realidade.
Em alguns momentos, Jung sugeriu inclusive que se abandonasse o termo "inconsciente coletivo", substituindo-o por psique objetiva, que é uma designação muito melhor, mas já era tarde demais, porque o inconsciente coletivo tinha caído na boca do povo e, na maior parte dos casos, a sugestão foi simplesmente ignorada. O próprio Jung teve que continuar falando em inconsciente coletivo, pras pessoas saberem do que ele estava falando, mas o fato é que não se trata propriamente de um inconsciente (o que pressupõe que seus conteúdos poderiam em princípio se tornar conscientes, mas não podem, porque os arquétipos são incognoscíveis), muito menos coletivo (a menos que se queira incluir nessa coletividade os animais, plantas, os próprios átomos e até o contínuo espaço-tempo).
Quer dizer, pra se ter uma noção exata do arquétipo, só mesmo lendo as Obras Completas de cabo a rabo e levando em conta a etapa em que cada texto foi escrito. Você não tem saco pra isso? Não esquenta - ninguém tem. Nesse caso, a melhor coisa a fazer é ir para o volume VIII/2, A Natureza da Psique, especialmente o capítulo VIII, "Considerações teóricas sobre a natureza do psíquico", que é o mais próximo de uma exposição resumida e sistemática que você vai encontrar pela mão do próprio Jung. Ali, ele trata do arquétipo psicóide, da relação do arquétipo com o instinto, sobre arquétipos e padrões de comportamento e, como foi escrito em 1946, o ponto-de-vista adotado é o da terceira etapa.
Depois, convém dar uma lida também no volume VIII/1, A Energia Psíquica, que é essencial para se compreender a relação entre os arquétipos e a magia, porque trata dos símbolos como transformadores da energia psíquica. E o volume VIII/3, Sincronicidade - Um Princípio de Conexões Acausais, onde Jung ex(em)pli(fi)ca o conceito de sincronicidade, que também tem tudo a ver com magia, uma vez que estabelece a capacidade dos símbolos arquetípicos para transformar a própria realidade dita "exterior".
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