Claudia Araujo   

 

A Humanidade de um modo geral, em suas raízes, é supersticiosa, somos seres supersticiosos, especialmente nosso próprio povo que se constitui em uma raça mesclada por várias raças, não podendo negar que temos muito do índio em nós, a ainda do povo africano, dos quais conservamos suas crendices, lendas e superstições. Assim, herdamos muito também dos seus ritos, hábitos e costumes. Bom, crendice e superstição, se não fizerem bem, mal não fazem, essa é a questão. Ninguém pode negar o apelo de um trevo de 4 folhas. Traz sorte? Deve trazer. Sou aquilo em que acredito, e se eu acredito que ele me dará sorte, ele vai trazer.
O mesmo papel é desempenhado pela planta comigo-ninguém-pode. Ela protege? Deve proteger, assim como me protegerão todas as pedras, conchas, amuletos, pés de coelho, e galho de arruda que carregar comigo... aos quais eu der poder de proteção. Esses objetos possuem "mana", e mana é uma palavra melanésia  que quer significar sagrado. Eles são sagrados, eu os tornei sagrados para mim. As lendas são sagradas para o povo do qual elas brotaram.
Muitas superstições até nos ajudam a nos organizar e na manutenção da harmonia. Conhecem a superstição de que não se deve deixar a bolsa no chão pois com isso se perde o dinheiro? Agora eu pergunto: deve-se deixar a bolsa no chão? Vai sujar, arranhar, desarrumar a casa. Para que deixar a bolsa no chão? Esvaindo-se ou não nosso dinheiro, não é uma boa deixa-la no chão. Não é o lugar apropriado. Muitas lendas também ajudaram os povos primitivos a organizarem suas vidas e lhes ensinaram a respeitar o desconhecido, o misterioso, o ignoto.  Ademais, elas são inequivocamente oriundas do mesmo manancial de onde brotam os mitos e os contos de fadas: o inconsciente.
Dedicaremos essa seção a elas, começaremos com as brasileiras, mas mantendo o projeto de mais tarde apresentarmos as de outras nacionalidades, assim como as lendas dos orixás cujas raízes antecedem nosso povo, mas que hoje formam conosco um corpo só, uma alma só, uma representação em comum nossa, mostrando o que somos e de onde viemos. E mais, acima de tudo, como ainda nos fazemos representar.
  Claudia Araujo

Lendas Brasileiras

MITO E LENDA NO FOLCLORE
José Moreira de Souza*
Você acredita em Papai Noel? Se acredita, aceita que outra pessoa desconfie disso, ou tolera que haja alguém que simplesmente o desconheça.
Para você, Papai Noel existe e acabou o assunto: você é daqueles que nem imaginam que possa haver pessoas que afirmem que Papai Noel é invenção? Quem sabe seu caso seja diferente: acreditava em Papel Noel e agora tem vergonha de dizer; ou acreditava e descobriu que Papai Noel era uma brincadeira; ou tem saudade do tempo em que Papai Noel existia de verdade?
Não sei se contemplei todas as alternativas, mas espero que você possa sublinhar a alternativa que é seu caso. Penso que ninguém, hoje, poderá dizer: nunca ouvir falar quem é Papai Noel. Mas por que estou tratando desse assunto? Estamos ainda no mês de agosto e o natal está longe. É que, convidado a falar de mito para vocês, não encontrei nenhum que chegasse mais perto de todos os leitores que o Papai Noel e, ao mesmo tempo, mostrasse o que é mito no Folclore. Preferi começar falando de Papai Noel porque ele está mais perto de nós do que Saci-Pererê, Mula-sem-cabeça, Lobisomem ou Vampiro.
Ao fazer as perguntas para você se situar e escolher, esperava encontrar pouquíssimas pessoas que dissessem: - para mim, Papai Noel existe, e pronto. Papai Noel não é posto em dúvida. Nesse caso, estamos diante do puro mito. Porém, a maioria de nós acredita, já acreditou, ou não acredita em Papai Noel, mas todos sabemos quem ele é.
Quando Pai Noel se torna assunto de "crença", mostra para nós o lugar do mito no folclore. Dá para você entender a diferença? Quando ninguém coloca em dúvida a existência de um "fato", estamos diante de um mito, em sua pureza; mas quando, um fato é objeto de "crença", então aí está o mito folclorizado. Se pergunto a meu pai: Papai Noel existe? E ele coça a cabeça ou a barba antes de responder, é que o mito de Papai Noel existe para ele como folclore. O Folclore estuda o mito que já é objeto de crença e não o mito de que ninguém duvida. Quando você precisa lutar para impor aos outros, suas crenças têm base em mitos folclorizados.
Agora, vamos à "lenda" de Papai Noel. Papai Noel vive na Lapônia. É um velhinho de barbas brancas e longas, vestido de lã colorida de vermelho e anda de trenó. Acabe você mesmo de contar a história ou procure um livro adequado. A história de Papai Noel é uma lenda. Quer dizer, ela tem elementos de "verdade". A Lapônia existe no mapa, é região onde faz muito frio e até cai neve, situa-se na Europa. Na Lapônia, as pessoas usam agasalhos contra o frio e, no Natal, é inverno rigoroso. O trenó é usado ali como veículo para vencer a neve. Papai Noel, na lenda, assume todos os traços locais.
Como disse, há mitos que não são ainda folclore e há mitos que existem como folclore. A lenda narra o mito, situa o mito. Há alguns mitos, ainda hoje, que não são Folclore e há lendas que não são mitos. Você já ouviu falar em Lampião, do Padre Cícero do Juazeiro, de Antônio Conselheiro ou do Presidente Getúlio Vargas? Em torno dessas figuras, há muitas lendas. A lenda que não é uma narração do mito é um conto exagerado. Nós mesmos temos muitas lendas ligadas à nossa família. A lenda é um recurso de gravar acontecimentos importantes que precisam ser memorizados, decorados. Decorar quer dizer: guardar no coração. A lenda, para isso, apela para o sobrenatural, Deus ou o Diabo. A maneira como uma pessoa ficou rica ou pobre, recebeu castigo por sua maldade ou foi premiada pela bondade, muitas vezes é uma lenda, conto se transforme em lenda, ele deve perder os direitos autorais, ser do que é chamado de "imaginário coletivo".
A lenda conta um acontecimento, enfeitando-o . A gente se lembre do acontecimento porque não consegue se esquecer do aspecto sobrenatural, fora do comum. O mito está acima do tempo e dos lugares, é universal. Já a lenda faz parte da "História". Lenda não é ficção, não é fábula, nem romance; é história contada, misturada a pedaços de mitos. Do mito ninguém duvida, até que este seja mantido por uma lenda. A lenda sustenta o mito quando as pessoas começam a desconfiar dele.
Histórias de Lobisomem são lendas. Mas, quando um homem da minha rua se transforma em lobisomem, não é lenda, é mito. As histórias de vampiro são lendas. Mas, quando uma mocinha amanhece com o pescoço mordido, ai o vampiro atacou em pessoa. Não é lenda, é mito. Quando contamos essas histórias, então trata-se de lenda. Lenda é mito contado, e mito é realidade vivida.
*José Moreira de Souza é Diretor de Pesquisa e Pós-graduação do Unicentro Newton Paiva [BH] e membro da Comissão Mineira de Folclore