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MITO E LENDA NO FOLCLORE
José Moreira de Souza*
Você acredita em Papai Noel? Se acredita, aceita que outra pessoa desconfie disso, ou tolera que haja alguém que simplesmente o desconheça.
Para você, Papai Noel existe e acabou o assunto: você é daqueles que nem imaginam que possa haver pessoas que afirmem que Papai Noel é invenção? Quem sabe seu caso seja diferente: acreditava em Papel Noel e agora tem vergonha de dizer; ou acreditava e descobriu que Papai Noel era uma brincadeira; ou tem saudade do tempo em que Papai Noel existia de verdade?
Não sei se contemplei todas as alternativas, mas espero que você possa sublinhar a alternativa que é seu caso. Penso que ninguém, hoje, poderá dizer: nunca ouvir falar quem é Papai Noel. Mas por que estou tratando desse assunto? Estamos ainda no mês de agosto e o natal está longe. É que, convidado a falar de mito para vocês, não encontrei nenhum que chegasse mais perto de todos os leitores que o Papai Noel e, ao mesmo tempo, mostrasse o que é mito no Folclore. Preferi começar falando de Papai Noel porque ele está mais perto de nós do que Saci-Pererê, Mula-sem-cabeça, Lobisomem ou Vampiro.
Ao fazer as perguntas para você se situar e escolher, esperava encontrar pouquíssimas pessoas que dissessem: - para mim, Papai Noel existe, e pronto. Papai Noel não é posto em dúvida. Nesse caso, estamos diante do puro mito. Porém, a maioria de nós acredita, já acreditou, ou não acredita em Papai Noel, mas todos sabemos quem ele é.
Quando Pai Noel se torna assunto de "crença", mostra para nós o lugar do mito no folclore. Dá para você entender a diferença? Quando ninguém coloca em dúvida a existência de um "fato", estamos diante de um mito, em sua pureza; mas quando, um fato é objeto de "crença", então aí está o mito folclorizado. Se pergunto a meu pai: Papai Noel existe? E ele coça a cabeça ou a barba antes de responder, é que o mito de Papai Noel existe para ele como folclore. O Folclore estuda o mito que já é objeto de crença e não o mito de que ninguém duvida. Quando você precisa lutar para impor aos outros, suas crenças têm base em mitos folclorizados.
Agora, vamos à "lenda" de Papai Noel. Papai Noel vive na Lapônia. É um velhinho de barbas brancas e longas, vestido de lã colorida de vermelho e anda de trenó. Acabe você mesmo de contar a história ou procure um livro adequado. A história de Papai Noel é uma lenda. Quer dizer, ela tem elementos de "verdade". A Lapônia existe no mapa, é região onde faz muito frio e até cai neve, situa-se na Europa. Na Lapônia, as pessoas usam agasalhos contra o frio e, no Natal, é inverno rigoroso. O trenó é usado ali como veículo para vencer a neve. Papai Noel, na lenda, assume todos os traços locais.
Como disse, há mitos que não são ainda folclore e há mitos que existem como folclore. A lenda narra o mito, situa o mito. Há alguns mitos, ainda hoje, que não são Folclore e há lendas que não são mitos. Você já ouviu falar em Lampião, do Padre Cícero do Juazeiro, de Antônio Conselheiro ou do Presidente Getúlio Vargas? Em torno dessas figuras, há muitas lendas. A lenda que não é uma narração do mito é um conto exagerado. Nós mesmos temos muitas lendas ligadas à nossa família. A lenda é um recurso de gravar acontecimentos importantes que precisam ser memorizados, decorados. Decorar quer dizer: guardar no coração. A lenda, para isso, apela para o sobrenatural, Deus ou o Diabo. A maneira como uma pessoa ficou rica ou pobre, recebeu castigo por sua maldade ou foi premiada pela bondade, muitas vezes é uma lenda, conto se transforme em lenda, ele deve perder os direitos autorais, ser do que é chamado de "imaginário coletivo".
A lenda conta um acontecimento, enfeitando-o . A gente se lembre do acontecimento porque não consegue se esquecer do aspecto sobrenatural, fora do comum. O mito está acima do tempo e dos lugares, é universal. Já a lenda faz parte da "História". Lenda não é ficção, não é fábula, nem romance; é história contada, misturada a pedaços de mitos. Do mito ninguém duvida, até que este seja mantido por uma lenda. A lenda sustenta o mito quando as pessoas começam a desconfiar dele.
Histórias de Lobisomem são lendas. Mas, quando um homem da minha rua se transforma em lobisomem, não é lenda, é mito. As histórias de vampiro são lendas. Mas, quando uma mocinha amanhece com o pescoço mordido, ai o vampiro atacou em pessoa. Não é lenda, é mito. Quando contamos essas histórias, então trata-se de lenda. Lenda é mito contado, e mito é realidade vivida.
*José Moreira de Souza é Diretor de Pesquisa e Pós-graduação do Unicentro Newton Paiva [BH] e membro da Comissão Mineira de Folclore
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